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Já não é novidade para ninguém que Cristina Branco há já algum tempo se desviou dos caminhos mais ortodoxos do fado para emprestar a sua voz a outras canções e autores. Se em "Abril" já tinha feito uma homenagem sentida a Zeca Afonso, compositor capaz de saltar entre géneros sem nunca perder a espinha dorsal bem portuguesa e tradicional, no seu mais recente álbum, "Kronos", a intérprete foi buscar a nata da criação musical recente, artistas nas suas palavras «herdeiros» desse sentir do «Zeca», para compor aquele que figurará provavelmente como a casa de algumas das mais bem compostas melodias com carimbo luso deste ano. Sob o auspício do tempo, passam por "Kronos" nomes do jazz como Carlos Bica e Mário Laginha, a aura feminina de Amélia Muge com o toque tradicional dos Gaiteiros de Lisboa, o rock de Rui Veloso e o classicismo do Maestro Vitorino de Almeida, lado a lado com as 'brincadeiras' da métrica de Sérgio Godinho e a história de José Mário Branco. Nomes como provas mais que dadas do sentimento português que mesmo não estando presentes no palco do Centro Cultural de Belém (Mário Laginha, Carlos Bica e Rui Veloso estavam sentados na plateia, de acordo com indicação da cantora), estiveram em todo o momento nas palavras e na voz de Cristina Branco e na irrepreensível musicalidade de Ricardo Dias, imparável no piano e nos arranjos que tanta vida dão aos temas de "Kronos", na maneira tão moderna com que o jovem Bernardo Couto maneja a guitarra portuguesa e na inesperada incursão da electricidade na guitarra de Mário Delgado. Entre os 24 temas que se ouviram nesta noite chuvosa em Belém, passaram na íntegra as 14 canções de "Kronos". Desde a melancolia de 'Tango', à popularidade de 'Bomba Relógio' de Sérgio Godinho, passando pela estreia com um toque especial para Lisboa de 'Eléctrico Amarelo', escrito por Rui Veloso e Carlos Tê, dois homens do norte, todos apresentados com a humildade de quem sabe que acertou em cheio por Cristina Branco. Porque é a sua voz que traz todas estas composições para a cumplicidade imediata com um público que não resiste a segui-la de perto, enquanto tira o fado dos cais e das ruas escuras e o leva para um passeio cheio de cor, pela estrada do optimismo.
